Reflexões da Garupa

 

Reflexões da única garupa

Quando o grupo SAIDAFRENTE começou a discutir o projeto Ushuaia para mim era algo distante e inatingível, sem noção do grau e gosto de aventura que teria a viagem.

Em um dos passeios com o grupo, alguns meses antes, tomando caipirinha em um hotel de Tibagi (passeio do mês), chegou o momento crucial onde todos tinham que assumir uma posição: “sim,vou”, “não, desisto”, já havia passado o tempo de reflexão, diziam os que estavam discutindo o assunto há mais tempo.

Quando chegou a nossa vez o Jota respondeu: “eu só vou se a Solange for”, me deu um frio na barriga e minha reação imediata foi dizer e eu só vou se a Simone (esposa do Carlão) for. A partir daquele dia comecei a refletir e sabia que a decisão tinha que ser minha independente de ser a única mulher a confirmar presença e decidi abraçar o desafio.

O Jota foi comprando nossas roupas, fazendo planos e participando de todas as reuniões para traçar o plano de viagem.

À medida que a data se aproximava procurei ler todos os livros e reflexões de outros aventureiros e acreditava estar consciente de tudo o que passaríamos – ledo engano – pois cada experiência é singular e não se repete.

No coquetel de despedida fomos com nossos familiares e lá estava eu com minha mãe, irmã e cunhado, contando com a cumplicidade da Graci (esposa do Marco) para esconder da minha mãe que seria a única garupa, tudo isso para protegê-la e não deixá-la preocupada.

No dia da viagem vesti, pela primeira vez, o traje completo de cordura e me senti uma verdadeira astronauta, tinha dificuldade em subir e descer da moto, pois não tinha elasticidade. Alguns dias depois parecia que estava de havaiana e moleton.

Pela pouca experiência como garupa (somente passeios curtos, que nem dava tempo para sentir cansaço), os primeiros dias foram muito desagradáveis: sentia dores de cabeça horríveis e qualquer parada era motivo para arrancar o capacete e aliviar a pressão na cabeça, com fisgadas no couro cabeludo.  Quando esquecia a cabeça sentia dores nos dedos dos pés, porque a bota de viagem é dura e não dá mobilidade aos pés e de repente descobri que doía tudo: cabeça, pescoço, articulações e até o bumbum. Comecei a pensar: será que vou agüentar? Vou estragar a viagem dos meninos? Foi quando tive uma séria conversa comigo (horas e horas, viajando de moto propicia viagens mentais maravilhosas) e comecei a refletir sobre a vida e, como por encanto, alguns dias depois percebi que as dores e desconfortos eram suportáveis, desaparecendo quase que por completo até o final da viagem, mesmo tendo formado um processo inflamatório no couro cabeludo e perdido “um tufo de cabelo”. Literalmente fiquei careca, com um círculo vermelho e inflamado, pouco acima da orelha esquerda e latejava sem parar.

Para a viagem, tentei levar poucas roupas, embalagens de higiene fáceis de encaixar nos alforjes e roupas íntimas de algodão por serem mais confortáveis. Lavávamos as roupas nos hotéis e terminávamos de secar, com freqüência, dentro dos próprios alforjes, deixando nossas roupas encardidas, amassadas e “levemente” fedidas à medida que fomos repetindo, principalmente, as camisetas.

O lado feminino, vaidoso e gostoso ficou adormecido nessa viagem, muitas vezes senti saudade de usar um vestido, uma sandália de salto e batom. Sempre que sobrava um tempinho, enquanto os meninos iam cuidar de suas motos, eu procurava salões de beleza locais e chamou minha atenção uma característica diferente da nossa. Nos salões argentinos (peluquerias), a maioria deles, não oferece serviço de manicure em tempo integral, precisando marcar dia e hora para poder fazer as unhas e, mesmo assim, sentia certa resistência das manicures.

Os meninos aventureiros foram ótimos, gentis, brincalhões, briguentos quando cansados e me deixaram muito à vontade, parecíamos um grupo de amigos de infância, quase irmãos.

O Moreira-Jota, meu Ursão, o Marco (presidente) e o César eram os perfis mais autoritários e quando o cansaço tomava conta deles às vezes se “arranhavam”, mas logo secava e a aventura continuava, pois as mágoas que porventura eram provocadas, na seqüência, cicatrizavam e do jeitão de cada um, todos acabavam se desculpando e eram desculpados.

O Lu, querido, meninão e muito poético, mas quando ele e o Marco começavam o jogo do convencimento e busca pelas melhores opções de hospedagem e alimentação, haja paciência e perseverança dos demais.

O Carlão era o fiel da balança. Nos momentos de crise, com suas piadas e brincadeiras, desarmava todos, até “strip tease” fazia.

O Braga sempre na dele, “gentleman” e atencioso comigo”, às vezes levava umas cacetadas dos mais cansados, na tentativa de contemporizar o grupo.

E eu tentava respeitá-los, cada um com sua individualidade, priorizando o objetivo maior da minha aventura que era encontrar respostas para algumas tomadas de decisão pessoais.

Nossos finais de dia eram gostosos, descontraídos e todas as noites o Lu declamava um poema para o grupo – era bacana – nos transportava para momentos de reflexão sobre a vida, o amor e o simbólico , muitas vezes, esquecidos no nosso dia a dia.

Nesses jantares saíam papos de tudo, piadas, contato com garçons, garçonetes, estas merecedoras de galanteios ingênuos, de pessoas distantes, com saudade do seu ninho. As gargalhadas do César, depois da caipirinha, eram contagiantes e desopilávamos o estresse do dia sobre duas rodas.

O pior momento da viagem foi quando retornamos de Cerro Sombrero para Rio Gallegos, onde o trajeto de pouco mais de 200 km foi o mais traumatizante e longo de toda a nossa viagem. Primeiro acompanhar a angústia do Braga pilotando no rípio e depois foi a nossa vez. Era horrível sentir a moto estranha (parecia meio bamba), caímos pela segunda vez, mas desta vez com estrago e conseqüências desastrosas pois todo o comando de marchas estragou e não podíamos continuar.

Ficamos parados no meio do nada, rípio, com vento, chuva, fome e ambos tentando passar segurança e tranqüilidade um para o outro. Já na van do Mauro ver o Jota pilotando a Virago devagar, com os pés mais no chão do que na moto, ouvir o Mauro tentando me distrair com a beleza da natureza (eu chorava baixinho, mas ele percebeu) dizer que era um contra-senso continuarmos a viagem. Enfim, os avisos e coincidências foram tantos e nós desrespeitamos a Pacha Mama, continuando a viagem após a moto ter sido consertada, mesmo ciente que o nosso emocional ainda estava abalado e precisávamos de um tempo para repousar.

No trecho restante, como carona do Lu (amigo querido e parceiro num momento tão singular de nossas vidas), continuamos desafiando Pacha Mama e os avisos continuaram e nós não quisemos percebê-los.

O Jota pilotava como se tivesse andando (a maior parte do tempo caminhava montado na moto) e nós dois (Lu e Solange) atrás, assistindo a angústia dele. Sentia o quanto ele estava cansado, desorientado e para aumentar mais ainda nossa angústia ele foi atropelado por um caminhão, sendo a cena mais traumatizante gravada em minha memória, ele cambalhotando no ar, depois da nuvem de poeira. Eu corri, agarrada no braço do Lu, pedindo para o meu pai (meu anjo da guarda) protegê-lo.

O contato com a natureza, tão contrastante, em tão poucos dias e de forma tão intensa, parece que registra em nossas percepções uma foto, mostrando o quanto somos pequenos, insignificantes e muitas vezes tão donos da verdade: passeamos por cidades, regiões áridas, com retas e planos, propiciando a percepção de ângulos de 360o com nitidez inquestionável, estradas de asfalto, esburacadas, rípio com vento, campos de girassóis, cauda da cordilheira com vegetação cerrada, lagos escondidos e montanhas com formas diferentes e majestosas, glaciares cristalinos e azulados, zorros atravessando a estrada, guanacos, emas e muitas criações de ovelhas que quase atropelaram o Marco em uma das travessias. Os senhores pingüins, que emoção, a gente volta a ser criança andando no meio deles. E o povo argentino campesino, então, parece outro país quando nos afastamos de Buenos Aires. São ingênuos, solidários e muito educados. Conclusão: foi uma senhora aventura, onde encontrei várias das minhas respostas, tomei algumas decisões de vida importantes, cresci e me fortaleci com as experiências e sensações de liberdade, cansaço, medo, fome, frio, dor, solidão, carinho e os amigos queridos que conquistei.

Paro por aqui? Com certeza não. Enquanto tiver força, quero viajar todos os anos e como comi a fruta “el calafate” sei que ela me levará novamente a Perito Moreno.