13º dia: quinta-feira, 27 de fevereiro de 2003: Rio Grande-AR a Rio Gallegos-AR = 387 km rodados em 18 horas (média de 21,5 km/h)
Percurso: Rio Grande/Puerto San Julian/Cerro Sombrero/Rio Gallegos
Saímos de Rio Grande às 7h30min. Pretendíamos ir direto até El Calafate. Teríamos pela frente 200 km de rípio, a balsa e quatro aduanas. O trecho mais difícil deveria ser de 20 km, perto de Cerro Sombrero.
Rodamos bem no início e até achamos que o rípio estava melhor que na vinda, porque tinha mais trilhos. Logo depois de passar a aduana Argentina, o Braga saiu na frente, pois andava mais devagar. Adiante havia uma encruzilhada e ficamos em dúvida sobre qual o caminho ele tinha seguido. O Marco foi por um lado e o resto do grupo continuou pela estrada mais provável. Marco retorna e segue com Luiz na direção do grupo, encontrando-os parados em outra encruzilhada. O Marco foi virar e escorregou, quase parado, ficou preso com o pé esquerdo embaixo do alforje, sendo necessário levantar a moto para soltá-lo. Os motociclistas se distanciaram, cada um no seu ritmo. Levamos nosso segundo tombo, mas estávamos bem e seguimos em frente.
Prosseguindo a viagem chegamos a Cerro Sombrero. Caímos novamente e desta vez o estrago na Virago foi preocupante. Tínhamos instalado um alongador para as pedaleiras, possibilitando que o Jota pudesse esticar as pernas, para o comando das marchas e do freio traseiro. Ocorre que quem instalou fez um só conjunto, ligando a pedaleira da direita com a da esquerda através de uma barra.
A moto foi ao chão, entortou as pedaleiras e danificou tanto o comando das marchas, quanto o do freio, nos impedindo de continuar. Carlão e Luiz tentaram nos ajudar, mas percebemos que não tinha como fazer a moto rodar. Retornaram ao posto de gasolina, atrás de ajuda, quando conheceram o Mauro, uma pessoa surpreendente que nos ajudou muito mais do que poderíamos esperar. Era, também, uma pessoa importante, o engenheiro responsável pela prospecção de gás na Patagônia, além de comandar as equipes que faziam reparos nas estradas.
Mauro, desprendido, cancelou seus compromissos e foi pegar uma caminhonete para transportar a nossa moto. Descobrimos que era um apaixonado por motos e carros. Tinha uma moto Honda 500, 02 cilindros, uma raridade, além de um carro de corrida, com o qual participava de competições no rípio. Inicialmente tentamos subir a moto na caminhonete, mas não conseguimos, devido ao peso. O Carlão, com um alicate, conseguiu engatar a 2ª marcha, e então, o Jota, lentamente, levou a moto até a cidade.
O Mauro nos levou até um barracão, onde tinha instalada sua oficina e central de operações, com todo tipo de ferramenta. Lá nos deixou completamente à vontade, servindo café, chá e bolachas. Enquanto isso desmontou as peças tortas e quebradas e pacientemente foi consertando tudo. Lá pelas 16h estava tudo pronto, só faltava montar todo o conjunto. Foi quando o Jota resolveu dar um aperto final e... cizalhou um parafuso de fixação da estrutura! Não teve quem não suspirou.
Mauro, pacientemente falou no hay problema. Refez tudo e ainda convidou amigos seus para nos conhecerem, ver as nossas motos e fotografá-las. Um deles também era proprietário de uma Harley, na qual tinha instalado um pneu de carro. Presenteamos o Mauro com o colete do Jota.
Finalmente tudo estava certo, pedi ao grupo que seguíssemos viagem no dia seguinte, para o Jota se alimentar, tomar um banho quente e descansar.
Já eram 17h30min, mas o grupo decidiu seguir a viagem, porque faltavam apenas 160 km e somente iria anoitecer lá pelas 21h, segundo informações de um guarda. Mas algumas surpresas desagradáveis nos esperavam. Logo percebemos que o vento estava muito forte, sendo quase impossível continuar e muito menos manter uma média horária razoável. Não há como descrever direito, mas as motos, todas pesadas, beirando os 300 kg, ficavam completamente inclinadas, quase tocando as pedaleiras no chão e mesmo assim andávamos na pista contrária e às vezes parecia que o vento nos jogaria no chão. Distanciamo-nos mais uns dos outros. Nós e o Luiz chegamos ao estreito de Magalhães sozinhos. A balsa tinha chegado. Com o vento, fortes ondas subiam pelo canal e chicoteavam a rampa de acesso à balsa, que ficava submergida a cada onda. Esperamos, esperamos e os outros não chegavam.
Além da preocupação pela segurança dos outros havia um problema sério conosco, em especial com o Jota que não pode pilotar à noite. Eram 19h, restavam pouco menos de 2 horas de sol e ele não pilota à noite, devido a dificuldades de visão. Se perdêssemos a balsa para esperar os outros ficaríamos na estrada à noite. Estava esfriando muito e neste trecho não havia onde se abrigar: não há postos, nem outra cidade, nem hotéis. Nada. Voltar e enfrentar as difíceis condições que passamos também não nos entusiasmava. Se fossemos em frente estávamos a apenas 120 km de Rio Gallegos. Na vinda passamos por este trecho e o rípio estava excelente. Resolvemos, então, prosseguir e aguardar os outros no mesmo hotel que paramos na vinda, como estava programado.
Subimos na balsa com dificuldades, esperando a hora certa de arremeter contra a rampa, quando as ondas recuassem. Só que a rampa era de ferro liso e estávamos entrando com as motos no mar, com forte vento. Felizmente tudo deu certo e subimos a bordo. Quando a balsa estava partindo, avistamos do “deck” alguns dos nossos amigos que nos sinalizaram, mas não conseguimos entender. Nosso destino, porém, estava selado, pois a barca já partia, enfrentando as ondas que nos elevavam e depois soltavam, produzindo um estrondoso baque. A barca é muito grande e estava cheia de caminhões pesados, de carga. Nossas motos iam espremidas num canto. Com o mar revolto, tanto a arrumação dos veículos na balsa (para garantir o equilíbrio) quanto à travessia, levaram muito mais tempo do que o normal (uns 50 min a mais).
O trecho de mais ou menos 50 km, que estava somente com meia pista calçada, tinha que ser feito na parte sem calçamento. Para subir na parte calçada tinha um degrau de mais ou menos dez centímetros, obrigando-nos a diminuir a velocidade quase a zero. O difícil e perigoso era fazer isso pressionado na traseira por uma carreta.
Logo depois os trâmites burocráticos da aduana nos custaram mais tempo do que imaginamos. Tínhamos pouco tempo de luz quando continuamos a viagem. Faltavam perto de 70 km de rípio. A situação começou a ficar crítica: o rípio, que na vinda estava bom, tinha sido modificado, tendo sido jogada uma espessa camada fofa, com grandes pedras lisas.
Só conseguíamos andar dentro dos trilhos formados pelos caminhões, mas com o vento muito forte, nos jogando como se fossemos um brinquedo, simplesmente não conseguíamos andar no trilho. Continuamente éramos jogados para as laterais, onde afundávamos no rípio fofo. Ficamos preocupados com a condição da Virago, quando, então, a Tana foi para a moto do Luiz.
A pesada LC assentava no rípio e por isso não caia (é muito baixa). Nestas condições nossa média horária caiu muito. Passamos a andar entre 5 e 30 km por hora. Logo anoiteceu e a situação ficou realmente dramática para o Jota, que perdeu completamente o equilíbrio, devido à deficiência visual, obrigando-se a manter os dois pés constantemente no chão e mesmo assim, andando em ziguezague. Ficamos angustiados. A pequena distância se tornou uma eternidade. Alternávamos momentos na estrada sem nenhum movimento, com grandes comboios de caminhões e carros (o fluxo de veículos é determinado pela balsa no Estreito de Magalhães), que levantavam uma nuvem de poeira, dentro da qual não tínhamos nenhuma visibilidade, mesmo com os faróis acessos.
De um modo geral, porém, os caminhões passavam devagar por nós. Perto da meia noite, o Luiz avistou, pelo retrovisor, um caminhão vindo em alta velocidade e tratou de escolher onde parar, deixando-o passar. À sua frente, 0 Jota desorientado e já meio atordoado pela tensão, pensou que as luzes do caminhão eram da moto do Luiz e assim, em vez de abrir passagem foi para a pista da esquerda. Vendo de trás, nós sentimos um calafrio, avistando o caminhão passar e o Jota bem à frente dele. Surge o impacto! Em meio a uma nuvem de poeira vimos o Jota e a Virago rolando, como se fossem duas bolas. O caminhão não parou e sumiu na escuridão. Foi um momento muito difícil. Apertei o braço do Luiz e corremos para acudir o Jota caído.
Aos primeiros exames mostrava-se bem, sentindo apenas fortes dores na mão esquerda. A moto, porém, não tinha condições de prosseguir. Saímos em busca de socorro, pois estávamos próximos de Rio Gallegos. Encontramos um posto da Polícia Rodoviária, acerca de 10 km, onde fomos prontamente atendidos. Era o momento da troca de turno e as duas equipes nos auxiliaram. O Luiz retornou ao local do acidente em uma caminhonete da polícia e eu fiquei no posto esperando. Com seis policiais a pesada moto foi prontamente carregada e levada até o pátio da polícia em Rio Gallegos. O Jota não quis ir para o hospital e fomos direto ao hotel.
Estávamos exaustos e em estado de choque. Não havia condições de dormir. A morte esteve presente, de forma intensa, naqueles instantes. Resolvemos, então, fazer um lanche num “cyber” café próximo ao hotel (eram quase 2 horas da madrugada), onde pudemos, com mais calma, falar sobre o que aconteceu. Continuávamos preocupados com os outros. Tentamos contato através do celular do César, mas não conseguimos. Como estariam?
Música: A Million Little Pieces – Placebo