Dia a Dia – Ushuaia 2003


9º dia: domingo, 23 de fevereiro de 2003, de Rio Gallegos-AR a Rio Grande-AR = 387,3 km rodados em 13,5 horas (média de 28,69 km/h)

Percurso: Rio Gallegos/Cerro Sombrero/San Sebastian/Rio Grande

Saímos de Rio Gallegos às 08:10 e teríamos pela frente 160 km de rípio.

Estava frio (4o C), nublado, um dia sombrio para um grupo ansioso com o maior desafio da viagem. Superar as pedras roliças, com motos inapropriadas. Corajosos ou imprevidentes? Nada disso, somente aventureiros.

Mal saímos da cidade e já entramos no rípio, uma estrada de terra cascalhada com pedras redondas e lisas (formadas pelo degelo da neve do inverno). Primeira reação, “parada para fotos”, tínhamos que registrar o início da nossa aventura.

No começo até achamos fácil de pilotar. Incomodava apenas a vibração. Neste trecho as pedras de rípio estavam cravadas na terra, fazendo as motos parecerem uma britadeira. Como resultado trincou um dos parafusos do suporte da bolha da LC do Luiz e aumentou o vazamento do cardã da moto do César.

Havia muitas máquinas trabalhando em uma pista paralela a que estávamos rodando. Ficamos em dúvida: seria uma pista dupla de rípio ou mais um trecho de asfalto? Para saber só retornando, daqui a alguns anos.

Chegamos à região que os americanos da GS 1100 disseram ter água até a metade das motos. A água já tinha baixado bastante, mas ainda não era possível passar, pois a água ainda estava acima das rodas de nossas motos. Não dava para passar mesmo. E agora? Teríamos que abortar nossa meta? Esperar mais alguns dias? Estávamos retornando para Rio Gallegos, frustrados, quando descobrimos um acesso para a pista em construção e mesmo com o tráfego proibido, demos uma de brasileiro sem braço invadimos a pista e seguimos em frente, até passar pelo alagado. Retornamos para a estrada principal, em nova ligação entre as pistas, alguns quilômetros à frente.

A estrada tem tráfego de caminhões pesados que estragam a frágil estrutura construída. Começaram a aparecer os buracos, crateras, costela de vaca e parecia que nossas motos seriam desintegradas. Tentamos ficar calmos e com a mente aberta, afinal, a opção era de todos, queríamos aventura pela aventura e não podíamos fraquejar.

Fizemos 78 km sacudindo motos, bagagem e motociclistas, até chegarmos à aduana de saída da Argentina para, um pouco adiante, entrarmos no Chile. Encontramos asfalto por um pequeno trecho, seguido de outro onde só havia asfalto em meia pista, por aproximadamente 50 km até chegar ao Estreito de Magalhães.

Este ponto é um marco, porque propicia a passagem do Atlântico para o Pacífico.

A única forma de atravessar é de balsa, na qual os veículos vão entrando, através de uma prancha de aço enorme, sob a batuta da equipe de bordo, que tenta ajustar os espaços e equilibrar o peso. Estava frio e ventava exageradamente forte, anunciando que estávamos nos aproximando do gelo austral, cuja água (5o C) congela um ser humano em poucos minutos. Levamos 20 minutos para fazer a travessia e do outro lado seguimos por asfalto por mais 30 km, quando, de novo, encontramos o rípio.

Até aqui, tudo sob controle, todos bem, apesar da tensão coletiva.

Fomos os últimos a serem liberados, depois que todas as carretas saíram e, como estratégia, ultrapassamos o comboio nos poucos quilômetros de asfalto, antes de chegar à aduana.
Depois que passamos a aduana, sempre no rípio, tínhamos duas opções de caminho: seguir pela chamada Ruta Panamericana” principal via de acesso a Ushuaia, ou pegar “um desvio”, num trecho novo. Este seria o trecho mais crítico e dias atrás o americano de BMW GS disse que a Panamericana estava difícil de passar (e se estava difícil para ele, de GS, imagine o que seria para nós). Estávamos preocupados com o percurso.

Por outro lado, num posto de gasolina nos falaram deste “desvio”, que passa por “Cerro Sombrero” e que estaria muito bom, porque as máquinas tinham recém aplainado a estrada. Optamos pelo desvio, abastecendo em Cerro Sombrero (a gasolina mais cara da viagem). Encontramos uma estrada plana, pela frente, como nos disseram, mas com uma grossa camada de rípio, onde nossos pneus afundavam. O que o que é bom para carro, pode ser péssimo para a moto e começamos a andar a 30 km/h. Começamos a pensar que não daria para continuar. Quando tinha uma descida era um desespero, não tinha como segurar a moto. Distanciamo-nos uns dos outros para evitar acidentes.

Depois de rodar 27 km paramos e optamos por voltar para a estrada internacional. Lá no final da fila, vinham vagarosamente o Braga, com sua Black Bird, fazendo malabarismos e o Luiz, com a sua pesada LC 1500 e encontramos os demais já voltando. Nova discussão, pois Luiz, Jota e Braga queriam continuar. Enquanto os demais esperaram, o Luiz foi obter novas informações com uns peões que estavam trabalhando na estrada. A indicação era a mesma de antes, de que era melhor continuar do que voltar e, assim, continuamos. Havia vários desvios e trechos com grandes valetas de água e barro. Várias vezes quase fomos ao chão, cada um enfrentando dificuldades. Aos poucos a estrada foi melhorando, apesar de continuar com fortes curvas inclinadas, pedras soltas e as motos teimavam em escorregar para a parte de dentro, muitas vezes na contramão.

Na beira da estrada avistamos vários refúgios: pequenas casinhas de chapas metálicas, com uma estrutura em ferro de bi cama e um fogão à lenha. É que se alguém ficar desprotegido à noite, no inverno, corre uma real chance de não sobreviver exposto ao tempo.

De vez em quando passavam carros em alta velocidade, espalhando rípio.

Não tínhamos outra opção a não ser continuar e depois de ter rodado aproximadamente 160 km passamos novamente pelas aduanas de saída do Chile e entrada na Argentina. Em todas as aduanas perdemos muito tempo, em especial na última (Argentina) quando caiu o sistema informatizado e o atendimento foi muito, muito lento, perdemos quase uma hora. Alguns empregados, tanto argentinos quanto chilenos, tiravam “sarro” de nós, dos nomes e sobrenomes. A burocracia é excessiva. Num pequeno trecho de 300 km, passamos por quatro aduanas (saída da Argentina e entrada no Chile, saída do Chile e entrada na Argentina), com muita papelada para preencher e assinar, além de filas e filas!

Neste dia encontramos dois curitibanos de XT600 que voltavam de Ushuaia. Batemos papo e confirmaram que fizemos a melhor opção, pois a Ruta 3, além de estar em piores condições de manutenção, também era mais movimentada.

Temperatura de hoje em Rio Grande: 7 graus centígrados na chegada. Durante o dia, no rípio, todos tiveram problemas e lutaram para não cair. Só o César achou o rípio 10! A BMW 1200 Cruiser surpreendeu com seu desempenho.

Como danos tivemos: na LC um parafuso da bolha e o protetor do radiador soltos; na Bandit a bolha quebrada com pedra (todos os carros que encontramos na estrada tinham seus pára-brisas quebrados); na BMW Cruiser 1200, vazamento no cardã e pedrada na bolha; na Intruder 1400 pneu no fim e a Virago, apesar de mais judiada pelo peso, sobreviveu com alguns arranhões.

De qualquer forma, já depois das 20h reencontramos o asfalto e assim, por volta das 21h30min, chegamos a Rio Grande. Estávamos exaustos, tomamos banho, jantamos e fomos dormir. Não conseguimos chegar a Ushuaia, mas estamos muito perto.

 

Música: A Million Little Pieces – Placebo