Dia a Dia – Ushuaia 2003


8º dia: sábado, 22 de fevereiro de 2003, de Comodoro Rivadávia-AR a Rio Gallegos-AR = 796,3 km rodados em 12 horas (média de 66,36 km/h)

Percurso: Comodoro Rivadávia/Caleta Olivia/Tres Cerros/San Julian/Coronel Piedra Buena/Rio Gallegos

Continuamos rumo a Rio Gallegos, com vários desafios à nossa frente: percorrer quase 800 km de retas e enfrentar longos trechos sem gasolina e fortes ventos.

Já havíamos tido alguma experiência com o vento lateral, mas este dia o danado ficou muito, muito forte e os pilotos tiveram que se superar aplicando tudo o que aprenderam sobre pilotagem. O vento, para quem vai rumo ao sul, vem da direita (continente) e obriga os pilotos a manterem suas motos inclinadas (mesmo nas retas) para a direita, para não serem lançados ao solo.

Quando passávamos por um caminhão, por exemplo, ele cortava o vento, fazendo um anteparo, para, segundos depois, passarmos por turbulência e recebermos o impacto muito forte do vento, pela direita novamente. Quando vínhamos inclinados a uns 120 km/h e nos aproximávamos da traseira de um caminhão éramos sugados ao encontro dele e tínhamos que levantar a moto rapidamente para quando estivéssemos quase o ultrapassando, reclinar novamente para a direita, pois a bofetada do vento era bem desconfortável.

Chegava a fazer um estrondo nos capacetes, como se Eolo estivesse zombando de nossa ousadia em enfrentá-lo. Assim, já saíamos da lateral do caminhão inclinando a moto bem para a direita como se fossemos fechar a frente do grandão, esperando o vento, que retornava para nos esbofetear. Toda essa sequência, em segundos, dentro do gigante e inóspito deserto da Patagônia! Depois que acostuma, fica automático e divertido, até para a garupa que faz corpo único com o piloto. Muito louco, cansativo e perigoso!

Passamos por dois trechos de 240 km sem gasolina, para os quais estávamos preparados, levando galões.

Nesses dois trechos rodamos devagar, de 90 a 100 km/h para economizar gasolina, o que causou muito sono em todos. Vimos o César atravessando a pista, como se a moto estivesse pilotando no automático. Depois contou que deu uma cochilada e acordou na pista contrária.

Num posto de gasolina encontramos um casal de BMW GS, ele dos USA, ela da Costa Rica, voltando de Ushuaia. Disseram-nos que passaram pelo trecho de rípio há quatro dias e que tinha chovido forte. A estrada tinha virado barro e em alguns trechos a água alcançava até a metade da moto. Péssima notícia. E agora? O rípio era nossa grande expectativa. Como a chuva tinha ocorrido há quatro dias, nossa esperança era que a água já tivesse baixado. Mais tarde encontramos uma BMW RT (moto pesada, grande e imprópria para aquele terreno) que estava voltando. Comentamos: se ela passou... nós passamos.

Continuávamos rodando próximos à costa e de vez em quando avistávamos um maravilhoso mar azul.

Foi um dia inusitado e rodamos o programado, chegando a Rio Gallegos às 20:00, depois de 12 horas de viagem. Estamos há apenas 600 km de Ushuaia e com muita expectativa de chegar.
Enfrentávamos mais dificuldades que o restante do grupo, pois além de ser a nossa primeira viagem longa de moto, estávamos em dois, com bagagem, em uma moto baixinha o que causava desconforto.

Em termos mecânicos as motos estão agüentando muito bem. Por enquanto, as únicas preocupações são com o cardã da moto do César, que está com um pequeno vazamento e com os pneus da Intruder do Marco que estão lisos.

 

Música: A Million Little Pieces – Placebo