11° Dia – 11/09/2012 – Terça-feira: em Cusco-PE
¡Qué enferma estoy! (Juku avariada)
Ontem após atingir os 4.725 msnm e conviver com o frio de 11 gaus C marcado na Juku, mas com sensação térmica de muito menos devido à umidade e ao vento forte.
Chegamos a Los Urcos cansados, meio zonzos, paramos a Juku numa pequena rampa na praça e por indicação de la policia fomos almoçar no melhor restaurante do pequeno município, uma rua atrás da praça e assim descansar um pouco, antes de chegar a Cuzco, menos de 50km distante de onde estávamos.
Após o rápido almoço, sopa de quinoa para nos aquecer, retornamos e vimos um círculo de pessoas, um pouco mais abaixo de onde tínhamos deixado a Juku.
¡Qué tristes estamos!
Lá estava a Juku deitada no chão e toda raspada do lado esquerdo (deslizou uns 3 ou 4 metros) com o espelho quebrado e gritando (alarme disparado). O povo peruano, junto com la policia, assustados. 400 pessoas na praça e ninguém viu nada. Só escutaram o barulho. O que fazer? Bater em todos os ceguinhos? Três homens ajudaram a erguê-la, tamanho é o seu peso (mais de 400 kg carregada) e lá estava deitada de lado, no asfalto.
Ainda meio atordoados com o fato juntamos o espelho, o Jota foi ao mercadão comprar fio elétrico para amarrar o top case e seguimos viagem, bastante preocupados, apesar de o motor estar funcionando aparentemente bem e o computador não ter sinalizado nenhuma avaria. O protetor do motor recém-montado atuou bem.
Assim que chegamos ao hotel, em Cuzco, descobrimos que havia um grupo de motociclistas alemães, com motos BMW e um mecânico com camionete estava acompanhando o grupo. Ficamos à espera e quando retornaram do passeio, em torno de 23h, o Jota foi conhecê-los, conversou com Jaime, o mecânico chileno da Motoaventura do sul do Chile, que avaliou a Juku hoje de manhã, fez os remendos necessários e nos tranquilizou que podemos continuar a viagem, mas com cuidado e para evitar estradas ruins.
Pesquisamos as condições das estradas e soubemos que há um trecho longo entre Puquio e Nasca (onde já sofremos uma vez com a GS), inclusive com as curvas fechadíssimas das serras peruanas, onde o asfalto foi retirado e está com rípio, buracos e asfalto péssimo onde ele existe.
Pesamos custo x benefício e abortamos Lima, Trujillo e Huaraz do nosso roteiro. Vamos até San Pedro do Atacama, Salar de Uyuni na Bolívia e retornaremos para casa 10 dias antes do previsto.
O que aconteceu com a Juku?
Foi derrubada sem querer, porque ficou em uma pequena subida? Desde o primeiro dia de viagem, em todos os lugares que paramos mal nos virávamos e lá estava a Juku sendo assediada. Fizemos várias suposições, mas ficaram para trás, apesar de arranhada na lateral, espelho quebrado (colado com durepoxi e silver tape), top case re-encaixado, retirados os acessórios que poderiam se soltar na viagem e provocar acidente, temos que pensar no melhor, mecânica e eletrônica não foram avariadas e nosso anjo da guarda mandou um mecânico especializado nos esperar aqui no hotel.
Ontem não registramos o fato, pois ainda não sabíamos da extensão das avarias e nem que decisão tomaríamos a respeito.
Cuzco
Conta à tradição quéchua, transmitida de boca em boca, há muitas gerações, que os filhos do Sol, Manco Capac e Mamma Oello, a pedido de seus pais, saíram do fundo do lago Titicaca com a missão de fundar um império.
Carregando um bastão de ouro, partiram rumo ao norte em busca de um lugar para plantar a semente de uma nova civilização. De tempos em tempos interrompiam a caminhada e tentavam fincar o bastão de ouro no solo, se ele firmasse era o sinal de que aquela era a terra abençoada; se caísse, a busca deveria continuar. 400 km depois o bastão de ouro repousou em Cuzco, tornando-se a capital do Império Inca.
Apesar de desfigurada pela colonização espanhola, ainda se vê muito da cultura inca, um povo que não escreveu a sua história, mas deixou um legado riquíssimo de trabalhos em ouro, pedra e prata, sistemas de irrigação, aquedutos e técnicas de agricultura, práticas de medicina, estudos astronômicos e cálculos precisos de engenharia.
Cuzco e as ruínas em suas imediações são um centro turístico visitado por habitantes de todo mundo, com atrações históricas, arqueológicas e arquitetônicas.
Hoje retornamos à Rua Hathuan Rumiyoq, mais precisamente no muro que já foi o palácio do Inca Roca – inca, na língua quéchua, destacava o seu governante, o filho do Sol, da mesma maneira que os egípcios chamavam seus reinantes de faraós, para ver a famosa pedra de doze ângulos.
Essa pedra, no meio da parede, demonstra o conhecimento de um dos princípios de engenharia - quanto maior o número de ângulos, maior o poder de sustentação - fundamental no Peru, atormentado por terremotos. O muro do ex-palácio tem uma fileira de pedras pequenas em sua base e a de doze ângulos no meio. Caso viesse um terremoto, as de baixo com maior flexibilidade tremeriam sem desconjuntar a base, e a maior (12 ângulos) se encarregaria de manter as pequenas coesas ao seu redor.
Esse mesmo princípio, somado a várias outras preciosidades e resquícios da ancestral cultura peruana, é percebido em qualquer construção inca, como Qoricancha, o templo do Deus Sol incaico, cujas paredes antes cobertas de ouro, a cor do Sol, foram dilapidadas pelos espanhóis. Nesse templo, há outros menores dedicados à lua, às estrelas e à chuva, ricos em simbologia e, curiosamente, todos com três janelas e três portas, representando os três mundos existentes: o de cima (espiritual), o de baixo (subterrâneo, interior) e o do meio (presente). Para os incas o ouro era o suor do Sol e a prata a lágrima da lua.
A cidade atual de Cuzco, antiga capital do império incaico, foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1983. Entre suas ruas empedradas se misturam edifícios de construção inca com construções coloniais de estilo barroco andino.
Está localizada a 3.399 msnm, com mais de um milhão de habitantes e o clima é seco e frio, com temperatura média anual máxima de 19 graus C e mínima de 4 graus C.
Para encerrar o dia de hoje, uma notícia: um estudo da UNESCO revelou que 2.500 línguas das 6.000 que existem no mundo correm o risco de desaparecer e uma delas é o quéchua. O povo andino está estimulando o estudo do quéchua para preservá-lo.
Amanhã descreveremos importantes lugares que tornam Cuzco mágica.
Aywa (tchau em quéchua), ¡hasta pronto!
Música: 100 metros – Amaia Monteiro.