Dia a Dia – Peru 2009


24o dia – Domingo - 25.01.2009: de Presidencia Roque Saenz Peña-AR a Barracão-PR-BR


Percurso:
Presidencia Roque Saenz Peña /Machagai /Resistencia /Corrientes /San Cosme /Itá Ibaté /Ituzaingó /Posadas / Gobernador Roca /Puerto Rico /Eldorado /Bernardo de Irigoyen / Dionísio Cerqueira /Barracão

Que se sucede? Eólo abrindo seus sacos de ventos mais velozes? Não! É o super homem? Tornados? Não! É solamente o Jota agarradinho nos manetes de nossa Bela da Estrada e mirando um “descidão” em forma de tobogã. Estavam tão concentrados, deitando o cabelo da Tana, que não viram aqueles vários pequenos cones laranja, indicando autoridade camiñera.

No mesmo sentido da estrada que estávamos, rumo a Eldorado, na saída de San Ignácio, três autoridades sob uma frondosa sombra (daquelas que pescador fica tirando uma soneca enquanto aguarda o peixe morder a isca), se manifestam diante do movimento repentino, um levanta a mão tentando mandar parar, outro sacode a cabeça e o terceiro joga o boné no chão. Essa cena foi presenciada por Tana, incrédula, mediante tamanha provocação, pois Jota e a Bela nem aí para as autoridades, ou melhor, não viram os cones na estrada, como veriam os guardas sob a sombra?

Cento e cinqüenta quilômetros depois, em Eldorado, Jota calmamente diz à Tana “os gulosos me morderam sem eu merecer e os preguiçosos não conseguiram me morder, mesmo eu merecendo”. Preguiçosos? Fácil, as autoridades sob a sombra e os gulosos?

Saída de Corrientes, uma pequena serra sinuosa com faixa contínua proibida nos dois sentidos e uma senhora fila. Jota e a Bela da Estrada (sempre eles) impacientes ultrapassam um carro, dois carros, três carros ..., até que encontram um caminhão de combustível e quando se preparam para ultrapassá-lo no pé da serra descobrem a policia camiñera, fazendo blitz (era a “caixinha”) em um domingo cedinho.

Relaxamos e continuamos atrás do caminhão, mais ou menos 100 metros. Passamos despercebidos pela primeira autoridade, segunda e na terceira mostramos a cara. Grudamos no caminhão e demos uma espiadela, na mesma pista, porém, próximo da faixa amarela, quando a terceira autoridade faz sinal com a mão para nos recolhermos. Jota e a Bela, impacientes (afinal o que são 100 m perto dos mais de 8.500km rodados? rsrs) mostram a cara mais uma vez e irritam aquela mesma autoridade (a terceira) que nos mandou parar.

Paramos, afinal ordens são ordens. Jota começa a estreitar relações com as autoridades das carreteras argentinas. Tana rapidamente saca da máquina fotográfica e começa a registrar a natureza. A terceira autoridade se intimida e volta para a estrada, mas a quarta continua a estreitar suas relações com Jota e lhe dá uma “mordida”. Conclusão, o curativo custou PA$ 50,00. Assim, contamos quem eram os gulosos. Em toda a viagem, tivemos duas tentativas das autoridades peruanas e uma das autoridades argentinas. E a desculpa para a mordida? “Acá en Argentina las motos tenem que seguir a la direcha de la trocha. No medio y na isquierda no puede.”

San Ignácio. Paramos em um posto ESSO para almoçar e nos chamou a atenção a placa da lanchonete, convidando as pessoas a comerem a única madeira comestível. Não conseguimos descobrir o que era. Lanchamos, descansamos, abastecemos nossa Bela da Estrada e pegamos la ruta, mas antes observamos que as pessoas entravam e saíam daquela lanchonete ESSO à vontade, homens com calções sem camisa e mulheres de biquíni, shorts, etc.

Descobrimos que estávamos próximos de um balneário e quando encerramos nosso lanche e nos preparávamos para ir embora, vimos nossa Bela ladeada por machos de todas as faixas etárias. Namoravam, olhavam e passavam a mão nela. Aí, um Igor argentino (a cara do nosso sobrinho de 14 anos) bem à vontade, a exemplo das demais pessoas ao redor, comenta conosco, com todas aquelas vestimentas pesadas “está fresco hoje, não?” Gargalhadas gerais e o quebra gelo havia acontecido. Muitas perguntas, fotos e novas bênçãos e desejos de suerte com acenos simpáticos.

Aqui cabe um registro de dias atrás, não lembramos exatamente quando. Sempre que paramos as perguntas se repetem. De onde vem? Para onde vão? Tem mais amigos atrás? Quantas cilindradas? Quanto vale? Qual a velocidade? E é nesta pergunta que o Jota, sempre assertivo responde: esta moto não é de corrida, é para viagem grande e para carregar muito peso (sempre mostra os bauletos carregados) até que um dia ...

Paramos em um posto, o Jota abasteceu nossa Bela, acomodou-a, foi ao banheiro e quando estava entrando na lanchonete chegou um senhor argentino, em uma camionete “Hillux”, que foi perguntando “quanto estava quando me ultrapassou?” O Jota: “uns 160 km/h”. “Mas como? Se eu estava a 160 km e rapidamente você desapareceu?” Gargalhadas e o assunto morreu.

São 7h, escuridão total e muito calor, jovens andando pelas ruas a pé, de motos pequenas ou de carro. Foi assim que saímos de Roque Saenz Peña hoje. Ao passar pelas ruas, rumo à estrada, descobrimos que os jovens amanhecem nas lanchonetes e bares, provavelmente pelo calor.

Registramos o sol nascendo, viajamos em estradas já conhecidas, matamos milhares de borboletas (os capacetes ficaram imundos de sangue e de restos dos insetos) e o Jota, para garantir sua habilidade em pilotar em curvas, entrou em Eldorado e pegou uma estrada de mais de 100 km sinuosos, para, de repente, chegarmos na aduana. Sim, às 16h estávamos entrando em Dionísio Cerqueira e a Tana, emocionada, cantando o Brasileirinho. Trâmites de 10 minutos.

Por falar em matar bichos, além das borboletas de hoje, ontem foi o dia dos pequenos pássaros, matamos três deles que se chocaram contra nossos capacetes, apesar de ficarmos desviando nossas cabeças em vários trechos. Os danadinhos saíam do acostamento ou das plantações e cruzavam o asfalto, bem próximos da gente, alguns se perdiam dos bandos e voavam em direção aos veículos. É impossível desviá-los.

Hoje o Jota leu o penúltimo diário de bordo. Sim, todos os dias quando chegávamos aos hotéis eu perguntava nossa quilometragem diária, acumulada e a velocidade mais alta. Às vezes, quando fugia muito da média já se antecipava e dizia para Tana “lembra daquela ultrapassagem ou daquele esticão?” e ela rapidamente, “hã hã”, mas pensava, qual deles? Quantas vezes, hoje, deitamos nossos cabelos? Qual dos esticões ou ultrapassagens? Pois é, daqui a pouco, quando o Jota ler este relato, vai saber e a Tana vai sentir saudade ...

Aos familiares e amigos que nos acompanharam o nosso muito obrigado, aproveitando este momento para registrar que raramente respondíamos, individualmente, as mensagens recebidas que nos comoveram, fizeram rir e nos fortaleceram, porque os recursos de comunicação nem sempre possibilitavam.

Procurávamos enviar os relatos para compartilharmos nossas sensações, mas ficávamos aguardando notícias de todos, com a vontade de chegar ao final do dia e ter alguém pensando em nós.

À Pachamama o nosso agradecimento por permitir irmos e virmos inteiros, saudáveis e felizes com mais este capítulo em nossa história de vida juntos (18 anos) quase encerrados, porém, com a certeza que nosso respeito pela natureza fortaleceu.

Amanhã, bem amanhã, começa novo capítulo em nossa história de vida. Estamos a 550 km de casa, quase 10.000 km rodados, durante 24 dias de experiências intensas, expectativas às vezes amedrontadoras, mas importantes para o nosso crescimento como seres humanos.

DADOS TÉCNICOS:


TEMPOS : EM MOVIMENTO 7h20min25seg; PARADO 1h50min16seg; TOTAL 9h10min41seg.

VELOCIDADES: MÉDIA EM MOVIMENTO 112,8 km/h; MÉDIA TOTAL 90,2 km/h.

DISTÂNCIAS: DO DIA 828,0 km; ACUMULADA 9.301,6 km.

CONSUMO: PARCIAL 11,18 km/l; ACUMULADO 14,33 km/l; Valores → 9284,5 km / 647,73 l.

Música: Green Slevees – Besta Instrumental