17o dia – Domingo - 18.01.2009: em Puno-PE
Titikaka! Nossa meta foi atingida. Visitamos e conhecemos o lago, as islas flutuantes e Taquile com seus habitantes descendentes dos quéchuas.
Às 6h45 um senhor peruano pra lá de marrento veio nos buscar de van. Fomos os primeiros turistas e de cara tentamos puxar “papo”, mas as respostas eram curtas e diretas. À medida que os turistas foram sendo recolhidos, o “marrento” mandava todos entrarem rápido porque estávamos atrasados. Primeira vez que vemos o motorista enquadrando turistas, sem se preocupar em agradá-los.
Enquanto aguardávamos a partida dentro do barco fomos surpreendidos por um artista local, fez um show curto, pediu contribuição e foi para outro barco cheio de turistas. Os barcos foram preparados para turistas e quando entramos parecia que estávamos em um ônibus.
Começamos o passeio, com o bom guia Esteban, e fomos direto para as islas dos Uros, flutuantes e patrimônio da humanidade. Cada barco de turistas vai para uma ilha. Nosso grupo, denominado Jumbo, era composto por três brasileiros (nós e mais uma paulista), de vários argentinos de Santa Fé, Córdoba e Buenos Aires, por colombianos, alemães, peruanos de outras regiões e até um filipino. A maioria, estudantes.
Os povos que lá vivem são descendentes dos aymaras e ainda conservam a cultura de seus ancestrais com pitadas de modernidade e conforto como painéis solares, luz e TV nas casas construídas com totora, base de tudo o que compõe as islas.
Para não esquecer o nome da planta fizemos uma analogia com a mamãe “totó da Ra”; assim ficará para sempre em nossa memória.
Essa planta tem uma raiz grossa, enorme e toda grudada como se fosse bloco de terra compactada. Seu caule é fino como canudinho de refrigerante (aquele mais grosso) e à medida que cresce vai ficando seco como palha.
Com as raízes constroem suas islas, com as folhas seus pisos, casas, bancos de praça, camas, artesania, ferramentas e alimentação. Comem uma parte branca do caule, nos serviram provamos e segundo Jota tem gosto de isopor e eu achei parecido com sabor de melão meio seco e macilento.
Na isla flotante, os Uros apresentaram a sua cultura e seus hábitos de forma simpática, com brincadeiras e sempre interagindo com o grupo. Após o cacique de a tribo visitada apresentar seu povo conhecemos as casas, artesanatos (muito bonitos) e interagimos com eles. Muito legal!
Quando demonstraram a construção das ilhas flutuantes nos contaram que se o povo entra em conflito cortam a ilha e são formadas novas comunidades. Interessante e simples, não? Resolvem seus potenciais problemas com objetividade e não deixam que a comunidade se destrua.
Atravessamos de uma ilha a outra em um barco de “totora”, movido a remo, e na despedida fomos surpreendidos com uma música e dança de despedida na língua aymara e já na seqüência cantaram bamos a la playa, finalizando com hasta la vista baby. Todos nós começamos a rir e eles riam da nossa reação. Despedimo-nos com muitos acenos e sorrisos.
De uma das ilhas de Uros fomos para Taquile, uma ilha natural há duas horas e quarenta e cinco minutos de Uros. A viagem pelo “Titikaka” foi cansativa pela distância, mas fantástica pelas plantações de “totora”, aves, marolas e céu azul em época de chuvas, principalmente que na noite anterior fomos dormir com tempestade. Nosso “capitano” tem 18 anos e nosso barco foi o último a chegar a Taquile sendo ultrapassado por vários outros. Parecia certo piloto brasileiro da F-1.
Chegamos a Taquile, ilha de descendentes de quéchuas, com seus três mil habitantes, vivendo a 4.000 m de altitude. Era perto do meio dia, com sol forte e caminhamos mais ou menos 500 m em uma subida dos 3.810 m de altitude do Titikaka aos 4.000 m da isla. Todos caminhando misturados a turistas de outros barcos, devagar, com respiração ofegante e alguns com visível mal estar. Nós dois conseguimos subir bem, cansados, ofegantes como todos os demais, porém, inteiros. Enquanto subíamos com dificuldade encontrávamos os quéchuas fazendo o mesmo caminho que nós, mas carregando enormes cargas em suas costas, amarradas pelas mantas típicas peruanas.
Almoçamos em uma residência, onde seus donos já aguardavam dois grupos com refeições prontas e bem servidas. Sopa de legumes e quinua e opção para trucha com arroz, batatas fritas e tomate ou omelete. A maioria atacou de trucha a dezesseis soles por pessoa. Ah sim, bebidas à vontade. Também serviram bebida quente, chá misto de coca (para prevenir dor de cabeça) com muña (para fazer a digestão).
Após o almoço fomos presenteados com um show típico quéchua de música e dança, sendo convidados os turistas para participarem.
Há uma Plaza dae Armas com artesanato bordado em algodão ou lã feitos por eles. Delicados, com composição de cores e desenhos harmoniosos. Não compramos porque não cabe mais nada em nossa bagagem e além disso, já tínhamos comprado em Cusco a tecelagem desejada. Pena que não sabíamos que poderíamos adquiri-la diretamente dos quéchuas, pois além de pagarmos bem mais barato, ajudaríamos aquele povo tão sofrido e ao mesmo tempo feliz.
Na Isla Taquile a cultura é centralizada nas relações humanas e no casamento. Os gorros tem cores distintas para solteiros e casados, da mesma forma os mantos utilizados pelas mulheres e as faixas na cintura também têm significados especiais, todos voltados para o respeito e a relação entre as pessoas.
Presenciamos os homens com pequenas bolsas na cintura cheias de folhas de coca e quando se encontram o cumprimento entre eles é feito com a troca de folhas de coca. Outra informação interessante; os casais vivem juntos durante três anos para se adaptarem; caso não consigam se separam porque o casamento é sagrado e se passam do triênio juntos, casam e vivem felizes para sempre.
Hora de retornar, mas para fazer bem a digestão com a ajuda do chá de coca e muña descemos 504 degraus de pedras até o porto. Dos 4.000 m onde estávamos para voltar ao nível do “Titikaka” (3.810m) precisamos descer esses 504 degraus de pedra em ziguezague, entre casas e plantações nos andenes (degraus). Fantástico! Parecia que estávamos fazendo a trilha inca. Que doce saudade.
Voltamos a Puno, assistindo a chuva com raios e trovoadas e o “Titikaka” com suas marolas assanhadas.
Da mesma forma que há piadinhas entre argentinos e brasileiros, brasileiros e portugueses também há entre peruanos e bolivianos onde cada um diz que do lago Titikaka os peruanos têm o Titi e os bolivianos o Kaka. É claro que os bolivianos dizem o contrário.
Já em Puno, fomos cambiar mais alguns dólares porque não resistimos e compramos artesanato dos Uros (tomara que cheguem intactas). Quando chegamos na Plaza de Armas, assistimos o desfile carnavalesco dos peruanos. Pequenos blocos desfilam ao som de uma banda, mas repetiu-se o ocorrido ontem. Começou a chover forte, com raios, trovões e Eólo intimidando os carnavalescos e a platéia. A noite carnavalesca esvaziou e, em poucos minutos, acabou. Assistimos da sacada do restaurante e ficamos sensibilizados com o término da festa, principalmente pelos foliões.
O Hotel Balsa Inn, a meia quadra da Plaza de Armas, três estrelas, bonito, bem decorado e com uma cama enorme. O Jota poderia dormir com duas peruanas do tamanho dele (duvido que existam) e os três dormiriam prá lá de confortáveis. Mas com todo respeito aos meninos, cuidar de hotel não é tarefa para homem. Este é o segundo hotel que nos hospedamos, administrado e cuidado por homens. A diferença é brutal, comparativamente a hotéis cuidados por nós meninas, tanto na higiene quanto na manutenção. Fui ligar a torneira quente e a danada ficou na minha mão, ao encostar no secador, caiu com o suporte e tudo e as tomadas, então, feliz do próximo hóspede que ficar em nosso apartamento, pois o Jota abriu os pinos do plugue da TV para ficar parado na tomada e o aquecedor, então, este só serviu para cabide das capas de chuva.
Amanhã devemos sair bem cedo com destino a Moqueguá, via Desaguadero (o lago Titikaka é alimentado por oito rios e somente um sai dele). O Desaguadero que também é o nome das cidades fronteiriças entre Peru e Bolívia.
Chegamos a pensar em voltar a Juliaca e pegar a estrada para Arequipa, que nos informaram estar sensacional. Com isso talvez economizássemos 160 km, porém são 345 km sem abastecimento e passa-se por grandes altitudes sujeitas à ocorrência de neve. Ficamos fiéis ao roteiro original.
O relatório de hoje vou encerrar com a oração dos peruanos: “Gracias Pachamama por nos dar dias tão intensos, conhecer povos tão maravilhosos e estradas desafiadoras com natureza bela para que consigamos chegar ao nosso destino”.
Música: Green Slevees – Besta Instrumental