12o dia – Terça-feira - 13.01.2009: de Nasca-PE a Sañayca-PE
Percurso: Nasca /Sol de Horo /Villa Tambo /Puquio /Pacucha /Negromayo /Chalhuanca /Sañayca
Pois é! Mais uma vez a Carruagem virou Abóbora. Mal saímos de Nasca em direção a Puquio pela Ruta 26A, ou seja, foi só deixarmos para trás a Panamericana Sur, que de Nasca vai até Lima e começou o calvário.
O negócio estava de um jeito que lembrava uma música da Carmem Miranda onde tem de tudo.
Tem buraco raso, tem! Tem!
Tem buraco fundo, tem! Tem!
Tem curva hiper fechada, tem! Tem!
Tem rípio, tem! Tem!
Tem vento forte, tem! Tem!
Tem barreira de manutenção, tem! Tem!
Tem cerração, tem! Tem!
Tem chuva, tem! Tem!
Tem frio de 3 graus, tem! Tem!
Tem asfalto enrugado, tem! Tem!
Tem lama, tem! Tem!
Tem vaca atravessando na estrada, tem! Tem!
Tem guanacos e lhamas nos assustando, tem! Tem!
Tem peruano lavando carro no meio da estrada, em curva acentuada, tem! Tem!
Tem peruano transformando a estrada em depósito de material de construção, tem! Tem!
E assim foi até chegarmos a Puquio (180 km com média abaixo de 50 km/h). Chegando a Puquio tem uns 20 km que “PUQUIO QUE PARTIU”. Um buraco emendou no outro, mas ficaram caroços de asfalto, sobressaindo entre esses buracos e tudo isso em cem por cento da pista mais os acostamentos. Só voando para escapar.
Até o GPS ficou fora do ar, sem sinal, por uns 330 km. Só voltou em Chalhuanca.
Brincadeira à parte vamos relatar como foi a viagem nesse trecho.
Quando fomos pegar nossa Bela da Estrada tivemos que tirar camadas e camadas de pó, fora os que já estão encalacrados e tomara que a turma do Ique consiga limpá-la, porque eu vou visitar o centro de estética assim que chegar em casa.
Tiramos muitas fotos, fizemos vários filmes para registrar paisagens e cenários que daqui a alguns anos serão lembranças vagas em nossas memórias. Em cada dia de estrada, nesta viagem, aparecem mais novidades e desafios. Ontem, enquanto jantávamos e bebericávamos uma Cusqueña (não lembrava que essa cerveja era tão deliciosa), falávamos amanhã vai ser mais fácil, o pior já passamos no Paso de Jama e em La Quebrada Del Toro. Vimos no Google Earth que o desenho da estrada era todinho em ziguezague, mas não refletimos (ainda bem) o quanto seria cansativo. A sensação é que você anda 200m para frente e volta 100m; pouco mais adiante parecia que tínhamos percorrido um bom trecho e quando conferia no velocímetro não tinha passado nem 10 km.
Lembrei muito do trecho entre o Estreito de Magalhães e Rio Gallegos, na volta de Ushuaia em fevereiro de 2003, o Jota na frente com a Virago 1.100 toda frouxa (ainda bem que só descobrimos em Curitiba) e eu na garupa do “pobre do Lu”, a cada minuto eu perguntava: falta muito pra chegar? E o Lu pacientemente respondia: falta!!!
Para entender o desenho do trecho uma boa dica é acessar o Google Earth ou, então, imaginar uns 150 km de Serra do Rio do Rastro (RS) ou da Estrada da Graciosa (PR). O desenho da estrada é lindo tanto olhando dos quase de 5.000 m de altitude para os lados onde percebemos e sentimos que estamos no mesmo nível das montanhas e acima das nuvens, quanto de baixo ao olhar para cima ver aquela imensidão que poucos minutos antes tínhamos passado por lá.
As montanhas do Peru são imponentes, agressivas e ao mesmo tempo acolhem árvores parecidas com as do serrado e pequenos arbustos se multiplicando nas pedras. Supera qualquer expectativa e estudos sobre nutrientes, aqueles que aprendemos na escola que são necessários para as plantas crescerem, pois é, aqui no Peru as plantas crescem nas pedras, ou melhor, nas montanhas.
Observamos mudanças na vegetação aparecendo o verde com muito mais freqüência e aumento acentuado da umidade.
Vimos guanacos e lhamas, estas têm olhos lindos com super cílios – o sonho de todas as mulheres – e elas têm um comportamento interessante, param no meio fio e ficam olhando a gente passar.
Passamos por vários povoados e a maioria das casas (casebres) estava fechada como se fossem cidades abandonadas, também só louco e motociclista para andar no buraco, frio, chuva e lama.
Depois de Puquio (onde abastecemos a moto) a estrada melhorou, virou asfalto e pudemos andar um pouco mais rápido, mas com pista lisa e chuva o Jota poupou nossa Bela da Estrada, afinal, só neste passeio ela já percorreu quase 5.000 km, sem uma reclamação, queixa ou susto para o piloto e sua garupa.
Paramos para comer uma barra de cereal, tomar um gole d’água, fazer alongamento e um “xixizinho” básico mais ou menos 80 km depois de Puquio. Nesse ponto vimos que nos esperavam belas pancadas de chuva, pois além do céu carregado víamos a chuva caindo a poucos quilômetros de onde estávamos. Não deu outro, tomamos uns banhos.
Chegamos ao Hotel Tampumayu (19 km após Chalhanca em Sañayca), perto das 14h - após quase 7h de estrada, para percorrer 385 km – nos alojamos e fomos almoçar, até mesmo antes de tomar banho e descarregar a bagagem. Nossa Bela está dormindo grudada na gente, só que do lado de fora da porta e faz companhia para um “supercão”, humilhado e deprimido, com focinheira na boca.
Atacamos de pisco sour, lomo a la parrilla (Jota, o abutre) e corvina a la parrilla (Tana, a pelicana) e cá estamos concluindo nosso diário para levantar cedinho, tomar café continental e seguir rumo a Cusco. Para amanhã não temos expectativa. Éolo pode nos tratar entre tapas e beijos; São Pedro soltar a bexiguinha; Pachamama nos conduzir por buraquinhos, buracos e buracões, que lá vamos nós na garupa de nossa Bela da Estrada, rumo a Cusco.
E foi assim que nosso Mototurismo transformou-se totalmente em Motoaventura
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DADOS TÉCNICOS:
TEMPOS : EM MOVIMENTO 6h10min; PARADO 45min; TOTAL 6h55min.
VELOCIDADES: MÉDIA EM MOVIMENTO 58,23 km/h; MÉDIA TOTAL 51,91 km/h.
DISTÂNCIAS: DO DIA 380,3 km; ACUMULADA 4.948,9 km.
CONSUMO: PARCIAL 16,01km/l; ACUMULADO 13,78 km/l; Valores → 4.724,2 km / 342,77 l (parcial).
Música: Green Slevees – Besta Instrumental