10o dia – Domingo - 11.01.2009: em Nasca-PE
Dia de descanso, de passeios e de compras, ou melhor, comprinhas porque é só o que nossa Bela da Estrada permite e, ainda por cima, cambiando o espaço com roupas que estão ficando pelo caminho. Hoje a despedida foi de um conjunto Blu4 (nem existe mais essa marca) que já tinha completado 13 anos.
Como todos os dias, levantamos cedo, durante o café nos encantamos com as toalhas rústicas peruanas tecidas em tons de vermelho e verde, tendo como motivação lhamas, sobre toalhas de tecido gelo, bem fino, cuja tecelagem é motivada com imagens dos “geóglifos pré-incaicos” de Nasca.
Sondamos e fomos atrás dos tecidos para adquiri-los. Andamos mais ou menos 1,5 km, desde o hotel e chegamos a uma casa interessante, com uma mangueira enorme no jardim onde, para nossa surpresa, conhecemos um tecelão estudioso da fabricação dos tecidos. Recebeu-nos com cordialidade, mostrou parte de seus estudos, compramos livro de sua autoria La outra historia, por Aurélio B. Munõz Alarcón, cujo objetivo é relatar a cultura Nasca, tomando como enfoque os nomes e significados da cultura do povo. Já demos uma olhada e parece interessante no mínimo, diferente do que escrevem os historiadores. Ganhamos de presente duas pedras entalhadas, uma com o colibri e outra com o astronauta.
Retornamos rapidamente para o hotel (próximo das 10h da manhã), pois tínhamos agendado o passeio aéreo pelas Líneas de Nasca.
Que fantástico e que nitidez tanto nas linhas quanto nas figuras, denominadas caminos incaicos, que estão sendo estudadas desde 1.926, tendo recebido notoriedade em 1.941, quando foram descobertas por um professor norte-americano, em um dia de solstício de inverno no hemisfério sul (21 de junho).
A partir deste momento a crença de que as líneas e desenhos eram caminhos incas passou a apresentar novo conceito: ser considerado o mais antigo e imenso calendário astronômico. Anos depois se descobriu que os desenhos foram construídos entre 300 a.C e 800 D.C.; logo, não foram feitos pelos incas e sim por uma cultura pré-incaica, conhecida como Nasca, origem do nome deste local.
Nessa região há uma personalidade homenageada com nombres de callles, aeroporto, restaurantes, bares, museus, ruínas e é claro nas Líneas de Nasca. Maria Reiche, alemã, nascida em maio de 1.903, filha de pai funcionário público e mãe pioneira do feminismo, formada em Teólogia e cultura inglesa.
Maria Reiche se formou em matemática, física e geografia e em 1.932, no auge do nacional socialismo e grave crise econômica na Alemanha, emigrou para o Peru, como professora particular dos filhos de uma família de peruano-alemães que residia em Cusco.
Trabalhou como professora de línguas alemã e inglesa, natação e geografia, além de trabalhar como tradutora, quando em 1.939, conheceu o professor norte-americano e passou a traduzir seus estudos científicos sobre sistemas de irrigação pré-columbiana.
A partir desse momento começou a estudar, com paixão, as líneas, paixão essa que a tornou uma defensora contra a depredação dos geóglifos, pelos habitantes locais e curiosos. Passou a viver no deserto, vindo a falecer em 1.998, aos 95 anos, sem encontrar resposta sobre a origem das enigmáticas figuras e linhas nítidas, perfeitas em suas proporções, quase que impossíveis de serem desenhadas com todos os recursos e conhecimentos atuais. Teriam sido desenhadas por seres de outros planetas? Maria Reiche teria sido a escolhida para disseminar ao mundo importante descoberta? Realmente faleceu sem encontrar respostas ou as levou consigo para preservar a natureza e o homem?
Algumas linhas e geóglifos de Nasca estão bem próximos da estrada, porém, sua nitidez só é percebida do alto, sobrevoando.
Fomos nós Jota e Tana, com a missão bem definida; Jota seria o cinegrafista e Tana fotógrafa. O avião é bem pequeno, cabem quatro pessoas, incluindo o piloto. Ao lado do piloto Marcos, sentou uma japonesa que está trabalhando há um ano e meio no Paraguai e nós dois fomos sentados no banco de trás, bem apertadinho. Fazia muito calor, escorríamos de tanto suar. Aproveitamos várias fotos e já apagamos outras; não ficaram tão nítidas quanto às dos postais e cartazes porque o mono motor tinha vidros embaçados de poeira.
Quanto à filmagem avaliaremos em casa, assistindo-a na TV, para escolher as melhores cenas, pois houve um momento que o cinegrafista se empolgou e resolveu mostrar suas belas coxas (coisa de principiante) para o espírito da velhinha Maria Reiche, que aficcionada pelo deserto, quis ver e conferir algo novo e que provoque um frisson diferente do sentido ao longo dos anos. Pode o Jota narcisista, ter filmado mais de 5 minutos de suas coxas, enquanto sobrevoávamos os segredos e mistérios de Nasça?
Retornamos no horário de almoço, comemos um linguado a la plancha (Tana) e uma parrillada de lomo (Jota), acompanhado de cerveja Cristal Pilsen (ruim e forte) e ensalada de la casa (deliciosa). Também nos serviram, como aperitivo, grãos de milho fritos (choclo) da mesma forma que comemos amendoim, nozes, castanhas, etc. Hábito comum no Peru e já provado quando estivemos em Cusco.
Fizemos compras para decorar a casa, ímãs para levar de presente e belas peças de prata. Jantamos em outro restaurante (não muito bom) e por lá deixamos esquecido um dos bonés BMW do Jota, de presente para quem o descobriu primeiro.
Chegamos ao hotel, ansiosos por ler as mensagens recebidas e ficamos felizes com as respostas que recebemos dos amigos e familiares, pois à distância sentimos mais saudades do que quando estamos no país, mesmo quando ficamos até meses distantes.
Também precisamos fazer parte dos registros da nossa viagem, de alguns fatos pitorescos como:
Virei lavadeira (de roupas) no Hotel Alegria; ficamos no último andar sob a laje que, por sua vez, foi transformada em depósito e varais espalhados (comum no Peru). De um lado do varal andavam as mulheres do hotel e de outro caminhava pelo cortiço andino a mulher do Jota, eu, Tana, disputando grampos de roupas e espaço para pendurar nossos trajes de moto, luvas, protetores de coluna e todas as roupas sujas de suor e de pó. Conseguimos eliminar o suor, algumas manchas e pó antigo de nossas roupas, que foram rapidamente substituídos por pó novo, enquanto secavam.
BIP! BIP! – esta é a regra que movimenta a cidade. Dezenas, centenas de veículos, em sua maioria Ticos coreanos da DAEWOO, que buzinam para atrair passageiros (Nasca não possui linhas de ônibus urbanos, daí a profusão de Ticos), cruzar ruas, virar para a direita/esquerda, anunciar que estão chegando, assustar os pedestres, enfim, o tempo todo ouvimos buzinas e mais buzinas. Na chegada em Nasca, o Jota se grudou na buzina da Bela da Estrada para anunciar sua chegada triunfal e imponente neste local andino, tão peculiar e tão místico.
Música: Green Slevees – Besta Instrumental